Donnie Darko e a teoria da viagem no tempo

ALERTA DE SPOILER: O texto contém revelações sobre o filme.

 

Em 2001, o jovem diretor Richard Kelly estreava nos cinemas com um dos filmes mais malucos e geniais da sétima arte: Donnie Darko.

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O longa trouxe o novo e inexperiente Jake Gyllenhaal para dar vida ao problemático adolescente Donnie Darko. O filme foi gravado em apenas 28 dias, com um orçamento baixo de 6 milhões de dólares (valor relativamente baixo comparado a outras produções norte-americanas) e obteve uma recepção fria em seu lançamento, só conseguindo notoriedade no cenário cult com seu lançamento em DVD. Richard Kelly teve um trabalho difícil em tentar convencer as produtoras sobre seu filme. Sendo assim, a Flower Films (produtora da atriz Drew Barrymore) foi a única que comprou a ideia. 

Esse filme aborda teorias sobre viagem no tempo e universos paralelos, o que deu muita liberdade ao diretor para não seguir uma ordem linear dos fatos. O filme brinca com o tema fazendo o público viajar no tempo desde o inicio do longa. Kelly não se preocupou muito em seguir com destreza todos os acontecimentos de uma forma padrão, erro muito comum em filmes de mesmo tema. Com isso, o filme acabou nos dando a liberdade de imaginar o que realmente estava acontecendo, já que não havia uma explicação “correta”.

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É importante detalhar que o filme utiliza muito bem o audiovisual, fazendo a trilha sonora nos contar a história junto com o filme. A trama contém três musicas que são essenciais para o entendimento. São essas:

The Killing Moon, da banda Echo & the Bunnymen.

Head Over Heels, da banda Tears for Fears.

Mad World, de Gary Jules.

Teorias sobre o enredo

Como já citado, o filme nos dá a liberdade de desenvolver várias teorias sobre a trama e o desenrolar da história. Apesar de existirem inúmeras, resolvi listar duas teorias que talvez sejam as mais importantes sobre o enredo.

#1 – Teoria do Universo Tangente

Pode-se dizer que esta é a teoria oficial por ser  sustentada pelo livro A filosofia da viagem no tempo, de Roberta Sparrow (a Vovó Morte). Esse livro é apresentado para Donnie através do seu professor de física.

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Essa teoria diz que existe o universo primário e o universo tangente (A e B), e que a história se passa inteiramente no universo tangente (B). Segundo o livro de Roberta Sparrow, o universo tangente acontece por algum problema causado na 4ª dimensão (explicado melhor no livro) e abre uma fenda, fazendo o universo A se interligar com o universo B. Por meio desta fenda, algum artefato pode acabar vazando (a turbina do avião). O livro diz que quando o universo tangente ocorre, se nenhum artefato vaza, as coisas ocorrem naturalmente até ele colapsar e não alterar nada no destino. Porém, quando algum artefato escapa, ele precisa voltar ao universo de origem para não causar uma catástrofe. No filme, o coelho Frank diz para Donnie que isso acontecerá em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. Se isso acontecer, um buraco negro se abre e destrói os dois universos de uma vez.

Seguindo ainda o livro, Roberta Sparrow diz que quando um artefato vaza, é escolhido um receptor vivo dotado de poderes (super-força, telecinese, controle sobre água e fogo) que deverá devolver o artefato ao seu universo de origem. Esse receptor é Donnie Darko.

Diz também que o coelho Frank  é um morto manipulado (pessoa que já morreu ou vai morrer durante a existência do universo tangente) que estabelece as ligações necessárias para o receptor efetuar a tarefa. Ou seja, ele cria os “acasos” que levam o receptor a executar tais tarefas a fim de devolver o artefato. Também existem os vivos manipulados que ajudam o receptor a efetuar as tarefas, porém de forma inconsciente (todos os outros personagens do filme são vivos manipulados).

Sendo assim, todos os acontecimentos ao longo do filme levam Donnie a matar Frank e retirar a turbina do avião (lembrando que nessa teoria ele possui super-poderes, por isso consegue retirar a turbina) onde sua mãe e sua irmã estão para que o universo primário continue a existir, sem colapsar com o tangente. O Donnie do universo primário não tem ideia que uma turbina vai cair exatamente em cima do seu quarto e não há como se salvar, já que o coelho Frank só existe no universo tangente e não há maneiras de avisa-lo. O livro explica também a cena final do filme, onde todos os personagens estão trites e chorando, enquanto Donnie está sorrindo. Isso acontece porque as memórias do universo tangente invadem o universo primário em forma de sonhos, por isso Donnie dá risada por ter sonhado com todas as situações que aconteceram e os outros personagens ficam tristes pois sonham com as catástrofes ocorridas (A mãe de Donnie sonha com ela e a filha morrendo, Frank sonha com ele matando Gretchen e levando um tiro no olho,  Jim Cunningham sonha com seu calabouço de pornografia infantil sendo descoberto). Donnie deveria estar triste também, porém ele não sabe que irá morrer, já que isso só acontece minutos depois.

E a Vovó Morte?  Como ela sabia de tudo isso?

Roberta Sparrow, ou Vovó Morte, teria sido uma receptora viva no passado que acabou se lembrando de todo o ocorrido em um sonho e relatou no seu livro. Vale lembrar que o receptor vivo não precisa necessariamente morrer, mas no caso de Donnie era necessário pois a fenda se abriu exatamente em cima do seu quarto.

#2 – Teoria do período Lunar

Essa teoria traz alguns fatos apresentados na teoria original, mas ela é menos complexa e não requer uma visão mística para entende-la. Ela diz que o os acontecimentos do filme são repetitivos, e, tudo que nós vemos já aconteceu em um determinado momento. Nós estamos assistindo o momento em que tudo ocorreu como o esperado já que o artefato precisa obrigatoriamente voltar a seu lugar de origem, e várias tentativas deram errado até que está que estamos vendo realmente desse certo. O fato de Donnie enxergar Frank com uma bala no olho ou simplesmente com a roupa de coelho é porque ele já o matou diversas vezes e essa imagem ficou gravada no seu subconsciente.

É interessante observar que os acontecimentos do filme parecem acontecer de maneira automática. Quando Donnie propõe a ideia de dar uma festa, ele não tem expressão alguma no rosto, parece programado. Tudo isso porque seu subconsciente já sabia que aquilo precisaria acontecer,  já que é por causa dessa festa que os acontecimentos “chave” do filme ocorrem.

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Nessa teoria, o período que a lua demora para completar um ciclo seria a explicação para tudo que está acontecendo, já que é este o tempo que Donnie tem para efetuar sua tarefa de receptor vivo antes que o loop recomece. A Lua demora mais ou menos 29 dias para completar um ciclo, chamado Lunação. Isso explica o porquê de Frank dizer o tempo que resta a Donnie. Se o ciclo começou no inicio do filme, quando Donnie está na colina, os 29 dias já começaram. Mas quando Frank aparece para Donnie, algumas horas se passaram, o que resulta em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

Seguindo ainda esta teoria, o filme nos mostra algumas cenas em que Donnie demonstra seu constante medo da morte. Ele é tomado por esse medo porque já morreu diversas vezes até que isso tudo se resolvesse e a situação seguisse sua ordem natural. Obviamente, ele não iria se lembrar da morte propriamente dita mas é possível que, antes dele realmente morrer, tenha sofrido e agonizado com uma turbina sobre seu corpo, e é isso que seu subconsciente lembra, mesmo que Donnie não saiba muito bem o porquê desse medo.

 

Como já citei no início, a trilha sonora tem papel quase fundamental nessa história e nos ajuda a entender perfeitamente o enredo. Não é por acaso que o filme tem como música inicial The Killing Moon, que diz:

Fate, Up against your will
Through the thick and thin
He will wait until
You give yourself to him

O destino, Contra sua vontade
Para o que der e vier
Ele esperará até
Que você se entregue a ele

Outra evidência que o filme está em looping são as referências ao número oito que o diretor fez (deitado, o número oito é o símbolo do infinito). O filme se passa em 1988. Se você somar os números 28, 06, 42, 12, você obterá 88. Quando Samantha pergunta quando ela vai poder ter filhos, na cena do jantar, Donnie responde: “não antes da 8ª série”. Donnie menciona o DeLorean, de “De Volta para o Futuro”, carro que precisa atingir 88 milhas por hora para viajar no tempo. O repórter da TV diz que a casa de Jim Cunningham foi incendiada “por volta das 8 da noite” e o clímax do filme ocorre uma semana antes da eleição de 1988, quando George Bush ganha em 8 de novembro. Além disso, uma referência leve de que as coisas estão em looping é quando o carro de Frank aparece no inicio do filme e passa despercebido pela maioria das pessoas.

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Outro ponto chave dessa teoria é o tanto de “Frank’s” que surgem na história. No começo do filme, os pais de Donnie contam sobre um Frank da época da escola que morreu a caminho do baile. O personagem da palestra de Jim Cunningham, que fez “todas as escolhas erradas”, também é Frank. O próprio Frank, quando Donnie pergunta qual é o nome dele, diz que recebeu o mesmo nome do pai dele, e do pai do pai dele, e do pai do pai do pai dele. O Frank representa as pessoas que surgem no mundo destinadas somente à desgraça, sem chance de escapatória. É possível fazer uma analogia a teoria da Maldição Kennedy.

Donnie Darko é um filme que fala sobre o conservadorismo, discute como pessoas com ideias novas acabam sendo massacradas pelo sistema, além de conter críticas a religião e ao fanatismo. Mostra como o ambiente escolar desmotiva o aluno a crescer e o obriga a seguir regras pré-estabelecidas. O filme também nos mostra como os momentos de felicidade são importantes para nossas vidas, mesmo que não sejam perfeitos.
Bruno Andrade

Um comentário em “Donnie Darko e a teoria da viagem no tempo

  1. Eis que é de enorme importância observar e reler cada diálogo do longa, pois como dito acima, em um deles o pai de Donnie traz de suas memórias o Frank de sua época, isso sustenta a teoria de looping em torno do filme. Eu creio que a história vai além do sobrenatural e de viagens no tempo propriamente dita, acredito que seja um retrato da vida real para um adolescente esquizofrênico e ou transtornado, pois neste universo as coisas também fazem ligação, seria como viver no mundo da lua, um lunático. Este seria Donnie.

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